
Pessoas com HIV e doença avançada frequentemente apresentam infecções oportunistas concomitantes, que podem cursar com manifestações clínicas atípicas e desafios para confirmação microbiológica dos diagnósticos, especialmente em países do Sul Global.
Relato do casoHomem cisgênero, 36 anos, HIV diagnosticado em 2013, sem tratamento prévio, internado em 2025 por piodermite, com imunossupressão avançada (CD4 3 cél/mm³ 0,58%). Iniciou tratamento de tuberculose após TB-LAM positivo, associado à terapia antirretroviral. Evoluiu com supressão viral após 2 meses, porém mantinha imunossupressão (CD4 1 cél/mm³ 0,68%), com síndrome consumptiva, diarreia e citopenias, mesmo após 5 meses de tuberculostáticos com cobertura para micobacteriose não tuberculosa. Reinternou por anemia grave e a endoscopia digestiva alta revelou úlceras esofágicas sangrantes, com inflamação crônica no histopatológico, sem visualização de microrganismos e com imunohistoquímica negativa para citomegalovírus e herpes. Mieloculturas e hemoculturas para fungos, micobacterias e leishmaniose negativas. PCR para Histoplasma não detectável em aspirado de medula óssea e antígenos urinários para Histoplasma não reagentes. Apresentou Western Blot para Histoplasma capsulatum com banda M negativa e banda H positiva em duas amostras. Diante da persistência do quadro e ausência de diagnóstico alternativo, iniciou tratamento para histoplasmose com anfotericina B, seguido de itraconazol. Evoluiu com resolução dos sintomas e recuperação hematimétrica e imunológica (CD4 219 cél/mm³ 8%).
ComentáriosEm pacientes com TB-LAM reagente, é fundamental instituir prontamente o tratamento para tuberculose. Contudo, é essencial manter investigação ativa para diagnósticos diferenciais e coinfecções. A condução deve se basear em abordagem sistemática, com diferentes métodos diagnósticos e elementos de convicção clínica, especialmente quando não há confirmação por testes de maior acurácia. No caso, embora não tenha havido confirmação etiológica definitiva, a positividade sorológica, associada ao quadro clínico e à exclusão de outras hipóteses, sustentou a decisão terapêutica para histoplasmose, com evolução favorável. O caso também reforça a importância do seguimento clínico em pessoas com doença avançada no primeiro ano após o diagnóstico. Estratégias como o circuito de doença avançada são fundamentais para garantir diagnóstico oportuno, manejo adequado de infecções oportunistas e redução da mortalidade.
Conflito de interesseNão.
Comitê de éticaParticipante assinou TCLE; projeto aprovado no CEP do INI-Fiocruz (CAAE 88392618.4.0000.5262).
Há Financiamento? EspecifiqueNão.


